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Crase sem chute: 5 dicas para eliminar alternativas em questões de concurso

Por Português Completo · · 6 minutos de leitura

Você encontra uma palavra feminina depois do “a” e pensa em colocar crase. Em outra alternativa, lembra do teste de trocar pelo masculino, mas a substituição não ajuda.

O problema é que esses atalhos precisam de contexto. Uma palavra feminina, sozinha, não determina o acento. E uma regra sobre substantivos pode não resolver uma construção com pronome ou locução.

Para decidir com mais segurança, vamos organizar cinco verificações e aplicá-las a questões reais da Cesgranrio e do Cebraspe. Os trechos citados estão identificados; os enunciados completos e os gabaritos podem ser consultados nos links.

1. Procure a preposição e o artigo separadamente

Na construção com substantivo feminino, verifique duas condições: o termo anterior exige a preposição a? O substantivo seguinte está acompanhado do artigo a ou as?

Quando as duas condições aparecem, ocorre a fusão:

a + a = à
a + as = às

Uma comparação apresentada pelo professor Décio Terror ajuda a visualizar:

  • “Obedeço à lei.”
  • “Obedeço ao código.”

A troca pelo masculino evidencia a preposição e o artigo. Use esse teste preservando a estrutura e o sentido da construção. Veja a explicação no Estratégia.

A primeira pergunta, portanto, é sobre a relação entre os termos. Só depois você decide se há elementos para formar crase.

Conferir a preposição a exigida pelo termo anterior e o artigo a do substantivo feminino; nessa combinação, a mais a forma à.
Duas verificações para o caso de preposição + artigo. Exemplo: Cesgranrio, Transpetro 2023, questão 8. Locuções e pronomes exigem análise própria.

2. Identifique a função da palavra seguinte

Antes de um verbo no infinitivo, como adotar, não há artigo feminino para se fundir à preposição.

Os pronomes também exigem atenção. O pronome pessoal mim não admite artigo feminino. Já os demonstrativos aquele, aquela e aquilo podem participar da crase quando são precedidos da preposição a.

Por isso, “antes de pronome nunca há crase” é uma generalização errada. O Manual de Comunicação do Senado diferencia esses casos.

Na prova, identifique a classe e a função da palavra. Estar perto de um verbo ou representar algo feminino não transforma um pronome em artigo.

3. Confira a combinação de singular e plural

Na questão da Transpetro que veremos adiante, aparece um à singular antes de uma expressão plural iniciada por diversas. A construção está incorreta: ali existe preposição, mas não o artigo plural as.

Esse detalhe permite eliminar uma alternativa sem alterar o restante da frase.

Cuidado, porém, para não concluir que palavras no plural impedem crase. A forma às resulta justamente da combinação da preposição com o artigo plural.

Leia o que está escrito. Uma construção com a, sem artigo, e outra com às, com artigo, precisam ser analisadas conforme sua estrutura.

4. Reconheça as locuções femininas

Expressões como à tarde, à noite e às vezes, empregadas com valor adverbial, levam acento grave.

Nesses casos, forçar uma substituição por substantivo masculino pode atrapalhar. Primeiro reconheça a expressão e a função que ela desempenha.

A questão do Cebraspe comentada abaixo cobra exatamente esse reconhecimento em uma indicação de tempo. O manual do Senado também apresenta locuções desse tipo.

Isso não autoriza acentuar qualquer sequência de palavras femininas. Você precisa reconhecer a construção que está sendo usada.

5. Trate a crase facultativa com condições

A presença de um possessivo feminino não torna o acento automaticamente facultativo.

Primeiro, precisa existir a preposição a. Quando um possessivo feminino singular acompanha um substantivo e o artigo é facultativo, podem existir as duas formas, com ou sem acento. Sem a preposição, não há fusão.

No plural, observe a diferença entre a e às. Não basta retirar o acento de uma forma com artigo e presumir que tudo continua correto.

O Estratégia explica essa distinção, inclusive com construções que mostram a presença ou a ausência do artigo. A condição vem antes do macete.

Questão comentada 1 — Cesgranrio, Transpetro, 2023

Identificação: nível médio, Prova 1 — Ambiental, questão 8, página 4 do caderno.

A banca pede a alternativa em que o acento grave está correto. Vamos analisar os pontos decisivos:

Alternativa Trecho da prova Comentário
A “à ingerem” O a retoma a água e funciona como pronome oblíquo. Não recebe esse acento.
B “beneficia à agricultura” Nesse sentido, beneficiar recebe complemento direto. Falta a preposição que justificaria a crase.
C “chegaram à conclusão” Há preposição exigida pelo verbo nessa construção e artigo feminino. O acento está correto.
D “à diversas situações” A forma singular foi usada indevidamente antes da expressão plural.
E “à adotar práticas” Adotar é verbo no infinitivo. Não há artigo feminino para formar crase.

Gabarito definitivo: C.

A questão mostra por que olhar apenas para o gênero da palavra seguinte é insuficiente: você precisa reconhecer regência, artigo e pronome.

Consulte o caderno da prova e o gabarito definitivo, disponibilizados em cópias no Qconcursos.

Questão comentada 2 — Cebraspe, CAESB, 2025

Identificação: conhecimentos gerais dos cargos de nível superior, caderno CG1, questão 9. O edital é de 2024; a prova foi aplicada em 22 de junho de 2025.

A questão apresenta três afirmações sobre os usos encontrados no texto:

Item I — “remontando à época da Inconfidência Mineira”.
A justificativa associa o acento à regência de remontar e à presença do artigo feminino. Item correto: a preposição e o artigo se combinam.

Item II — “a mim”.
A afirmação diz que o acento seria facultativo. Item errado: o pronome pessoal não admite o artigo necessário para essa fusão. A justificativa da banca rejeita a possibilidade de crase.

Item III — “à tarde”.
A afirmação considera obrigatório o acento nessa expressão. Item correto: trata-se da locução adverbial de tempo presente no texto.

Gabarito definitivo: C — apenas os itens I e III estão certos.

Consulte a questão com justificativas da própria banca, páginas 3 e 4 e o gabarito definitivo.

Cesgranrio e Cebraspe estão cobrando entendimentos diferentes?

Essas duas questões não demonstram divergência gramatical. Elas exploram construções e comandos diferentes: uma pede o emprego correto; a outra exige julgar as justificativas.

Para sustentar uma diferença entre bancas, seria necessário comparar casos equivalentes e seus gabaritos definitivos. Uma resposta diferente em uma frase diferente não basta.

Ao estudar, registre o fundamento da decisão: regência, presença de artigo, classe do pronome ou reconhecimento de locução. Isso permite comparar questões sem transformar uma ocorrência isolada em regra permanente da banca.

Como usar essas dicas na próxima questão

Antes de marcar a alternativa, percorra esta sequência:

  1. Leia se o comando pede o uso correto, incorreto, obrigatório ou facultativo.
  2. Identifique a construção: substantivo, verbo, pronome ou locução.
  3. Nos casos de preposição e artigo, confira os dois elementos.
  4. Observe singular, plural e determinação.
  5. Explique por que o acento deve aparecer — ou por que não pode aparecer.

Depois, confira o gabarito definitivo. Se errou, registre qual dessas verificações faltou.

Você terá uma orientação concreta para a revisão: retomar a regência, distinguir os pronomes ou estudar as locuções que ainda não reconhece.